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Que Zeus esteja com a Grécia, porque eu estou!

13 de jul. de 2015
7 min de leitura

O último final de semana foi o auge da crise “de nervos” na Grécia e tenho que confessar, na minha casa também. Fomos visitar meu pais em Belo Horizonte e ficamos horas (literalmente) discutindo sobre a situação nervosa e catastrófica que a Grécia está enfrentando. No almoço em família, enquanto as almas gregas esperavam agoniadas por uma definição que possa pelo menos deixar nossos parentes “respirarem” um pouco mais do que 60 euros por dia, as vozes dos corpos brasileiros questionavam ensandecidas os motivos que levaram a tal crise. Por que chegaram em um ponto tão crítico?

E não é apenas ao redor da mesa na minha casa que existem discussões como essa. Seja nas mídias sociais, na TV, nos jornais, na roda de amigos, para todo lado tem gente querendo dar uma opinião sobre a situação da Grécia. Há quem culpe os gregos, outros culpam os alemães, os políticos, o povo, a corrupção, as olimpíadas, os produtos chineses, a queda do turismo, a falta de indústria, o estilo de vida…o café! Enfim, não faltam motivos e eles se misturam e se complicam em um nível difícil de compreender. O que podemos fazer é tentar enxergar a situação “mais de perto”, certo?

A parte de dados econômicos e informações financeiras eu deixo para os economistas e jornalistas contarem. Neste post, eu vou falar do que vi na Grécia quando eu morei por lá e o que vejo ano a ano desde o começo da crise. Vou dividir com vocês um pouco do dia-a-dia em Atenas e principalmente nas ilhas, porque meu intuito é espalhar um ponto de vista diferente do que vemos por aí. Afinal, é fácil criticar o outro quando estamos sentados no nosso rabicó, o difícil é dar uma solução para o problema. E o que me parece é que o caso da Grécia é bem mais complexo do que o nosso senso comum imagina então toda ajuda é bem-vinda!

Quero começar dizendo que o grego é trabalhador e esforçado e acho muito triste algumas pessoas pensarem que os gregos são preguiçosos, isso é pura falta de perspectiva e falta de entendimento de diferenças culturais. Seria a mesma coisa dizer que o brasileiro vive de férias e não faz nada, só porque temos carnaval e milhões de feriados. Aliás, essa é a pergunta que os gregos sempre me fazem: “por que vocês viajam tanto?”. Eu tento explicar que trabalhamos bastante e tentamos “emendar” alguns feriados. “Quantos dias é o carnaval no Brasil?”, tento explicar que em geral são 5 dias, mas depende do lugar. Na Grécia, pelo menos em algumas ilhas, o carnaval dura uma noite. E lembro que trabalhei até as 8 da noite na minha loja, antes de ir para a tal festa.

Então de onde vem esse pensamento de achar que o grego é preguiçoso? Provavelmente, se você já foi a Grécia percebeu que os gregos tomam vários cafés por dia. As cafeterias ficam cheias o dia todo no verão. “Esse povo não trabalha?”, eu pensava no começo. Depois entendi que este é o estilo de vida do grego, a hora do café é sagrada. Mesmo que ele fique mais horas no trabalho, ele prefere fazer isso e ter alguma(s) pausas por dia para tomar seu café. É isso, estilo de vida. No Brasil, muitas pessoas têm duas horas de horário de almoço. Isso quer dizer que não trabalham?

O comércio na Grécia fecha no meio do dia. Sim, acontece e em cada lugar funciona de um jeito, o que complica mais ainda nosso entendimento. Em Atenas, por exemplo, o comércio de bairro abre cada dia da semana em um horário diferente. Nas ilhas, o comércio voltado para os gregos fecha depois do almoço e reabre no final do dia e eu posso te garantir que não tem muita gente caminhando no bairro nesse horário. Já nos lugares turísticos, normalmente tudo ficar aberto de 9 da manhã as 9 da noite. Ou de 8 da manhã as 10 da noite. Todos os dias. E se isso não afeta a vida do turista, por que criticar? Os gregos são empreendedores e é comum que o dono do comércio seja o único ou um dos únicos funcionários e ele precisa adequar o seu trabalho com a sua vida. Se ficar as 12 horas em pé na loja, quando vai lavar a roupa? Eu mesmo me fiz essa pergunta quando quis manter a minha loja aberta o dia inteiro em Santorini. Moral da história, depois de 3 dias de roupa suja e louça acumulada e praticamente nenhuma venda extra no horário estendido, voltei ao modo grego de ser. E fui feliz assim.

Os gregos de ilha só trabalham no verão. A maioria sim, isso é verdade. Eu já morei nas ilhas verões e invernos suficientes para entender que no inverno não acontece nada. Não existe vida, as pessoas que têm negócios fecham suas portas e vão para a casa de algum parente em Atenas. Se existiam 100 cafeterias abertas no verão, no inverno sobram 3. Uma em cada ponto da ilha, nada além disso. Os pontos turísticos fecham quando os turistas param de aparecer, meados de novembro (na melhor das hipóteses). Em ilhas menores, no meio de setembro já não existe um turista. E os gregos nativos, aqueles que vivem na ilha 12 meses direto e não tem para onde fugir no inverno são pessoas de coração puro e simples e que apreciam o estilo de vida da ilha. Eles entendem que tem que ralar muito no verão porque no inverno não haverá nada. Assim, não existe dia de folga de maio a outubro, as pessoas trabalham 7 dias por semana, 9 a 10 horas por dia, com um almoço corrido em cima da mesa do escritório. Quem mora nas ilhas só vê a praia, mas normalmente não consegue freqüentar, não toma um banho de mar, pois o grego sabe que o verão é tempo de trabalhar e ganhar dinheiro. Convivi com gregos em Santorini que eram donos de agências de turismo e que não iam a praia há 8 anos, nem para passear com o cachorro. Importante: eles moravam há um quarteirão do mar.

Verão é para ganhar dinheiro nas ilhas, e se for um ano bom, dinheiro suficiente para sobreviver no inverno. Se não fosse suficiente, havia uma opção de recorrer a algo que era tipo um seguro-desemprego, que era oferecido para pessoas registradas e que pagavam impostos, do ramo de turismo, pelo menos foi isso que me explicaram em Santorini. A grande maioria no entanto, não usava esse dinheiro. Eles tinham uma vida simples e econômica durante o inverno, entocados em suas casas na frente de um aquecedor velho enquanto a chuva castigava a ilha. Fica tudo cinza quando dezembro chega e eu morria de dor nas juntas por causa da umidade. Não dá para caçar, não dá para construir casas, nem vender souvernirs, nem colher uva e azeitona, nem alugar carro quando a ilha se esconde na névoa. É esperar pelo sol do próximo verão e se tiverem sorte, pelos turistas.

Eu quase fiquei louca no primeiro mês do inverno pois não estamos acostumados a temporadas tão extremas em nossas vidas. Logo decidi abrir meu negócio e foi quando tive minha primeira loja, voltada para os moradores da ilha. O negócio começou muito bem, mas depois de alguns meses comecei a sentir o peso de uma crise anunciada. Enquanto os sinos das igrejas tocavam no meio da neblina pesada do inverno de Santorini, anunciando que mais alguém tinha morrido de frio, eu fazia as minhas contas e assim como o povo da ilha, esperava ansiosa pelo sol do verão. A vida nas ilhas não é fácil e grande parte da população grega vive de acordo com limitações extremas que nós nem podemos imaginar. É comer o que a terra ou o mar te presenteia no inverno, por não haver outra opção. O grego de ilha é adaptado a isso e ele vive no presente como ninguém. E sabe ser feliz assim.

Mas e por que eles não vão para outro lugar no inverno? Pelo mesmo motivo que nós não vivemos um semestre em BH e um em SP. Não é fácil alugar casa, arrumar emprego e para se estabilizar é necessário algum tempo. Mas quando for verão de novo, é preciso voltar para a ilha porque é para lá que todos os gregos vão! Difícil, né? E ainda é preciso entender a natureza do povo da ilha, eles não se parecem (nem de longe) com brasileiros de BH ou SP. Ele é um expert da natureza do seu habitat, sabe tudo do clima e do vento, mas quase nada do mundo lá fora. E a ilha, com seus parentes e amigos é tudo que eles conhecem.

Enfim, eu entendo que o governo grego dava vários benefícios para o povo e alguém tem que pagar essa conta alta. Para vocês terem uma ideia, quando eu fui para a Grécia pela primeira vez, meus primos sempre pagavam meia entrada, seja no ônibus, no museu ou no show, porque eles eram de uma família com 3 filhos e estudavam. Lembro que meu tio tirava férias com a família e o governo dava algum desconto em hotéis e passagens, assim os gregos de Atenas podiam conhecer as ilhas. Eu achei isso o máximo mas entendo que financeiramente parece matemágica. A conta nunca vai fechar e a dívida só tende a aumentar. E acredito que meu avô grego que saiu da pequena ilha de Poros há mais de 50 anos também não deve compreender o complicado somatório das contas gregas. Afinal, quando ele e a família atravessaram oceanos rumo ao desconhecido, eles o fizeram porque queriam trabalhar, queriam melhorar de vida. Fome, miséria, guerra e crise era tudo de pior e mais temido e é exatamente o que ele lembra da Grécia daqueles dias.

E se houvesse indústrias nas ilhas gregas que pudessem empregar as pessoas no inverno, eu duvido que algum grego se negaria a trabalhar, assim como meu avô da ilha de Poros nunca se negou e trabalha até hoje, mesmo com seus 70 e tantos anos e muitas operações no coração. Ele é forte, determinado, mandão e trabalhador, do jeito mais grego possível. Ele não foge a luta. Por isso, reitero. Eu não acho que os gregos são preguiçosos. Eles são gregos e vão sobreviver ao solavanco da crise. Ajustes serão necessários? Isso sem dúvida. Uma geração pode ser sacrificada? Infelizmente sim. A crise vai demorar a passar? Provavelmente. Ainda assim, estou com os gregos. Se eles disserem NÃO, eu direi NÃO. Se disserem SIM, eu direi SIM. E continuarei a observar suas vidas de perto, ano a ano, verão a verão.

Posto algumas fotos do meu álbum pessoal antigo da Grécia para vocês 😉 Espero que todos possam visitar a Grécia, o quanto antes, para conhecerem a energia mágica daquele lugar, suas comidas deliciosas, suas danças animadas, seu povo especial, suas ruínas fantásticas e suas belezas de tirar o fôlego. Na torcida pelos gregos!

NOTA: Em geral, nas ilhas, as pessoas entendem que só existe verão e inverno (e eu fiquei assim também! kkkkk). Também quero dizer que o que eu falo é do conhecimento simplista que ganhei quando morava nas ilhas. Minhas explicações são rudes e apenas observações da vida real na Grécia, passadas diretamente dos gregos nativos. Quem quiser comentar ou contribuir, fique a vontade!

Vida na Grécia  família na ilha

Família na ilha de Poros


Vida na Grécia ilhas gregas

Poros


Vida na Grécia Atenas

Eu e minha prima em Atenas


Vida na Grécia Santorini 1

Santorini


Vida na Grécia Atenas ilhas gregas

Ilha de Poros


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