Nossa boa e velha força de vontade
Uau, contei menos de dois meses para a nossa próxima grande aventura: Emirados Árabes + China. Finalmente ontem, depois de algumas horinhas relaxantes em um spa, eu e meu marido encontramos tranquilidade para começar a pensar nos detalhes curiosos e importantes que permearão essa viagem. Um jantar com nossos amigos que acabaram de voltar da China e pronto (!), não conseguimos falar em outro assunto e na minha cabeça eu já comecei a fazer as malas!
E você, assim como eu, pode pensar inicialmente que a parte difícil da viagem vai ser a China. Os costumes, as distâncias, a impossibilidade de comunicação, a muvuca geral e tudo que a gente já escutou sobre aquele imenso império é de assustar (ou empolgar) qualquer viajante corajoso. Xangai, Pequim, Datong e Guanzhou serão o grande desafio da viagem, certo?Então…. parece que não. Eu sei que Dubai e Abu Dhabi são famosos por serem destinos caros de turistas que querem ver as maiores coisas construídas pelo mão do homem (e de muitos homens), desfrutar de excelentes hotéis e restaurantes tops de linha, é lógico que eu tenho essa noção. Ah, e tudo isso com uma pitada de excentricidade exótica do Oriente, não é isso?
E como teremos 6 dias lá no começo da viagem + 4 no final, comecei a minha pesquisa minuciosa pelo país obcecado por superlativos e me deparei com uma realidade bem diferente da retratada pelas blogueiras de moda em seus vídeos pelos malls de Dubai. E entendi, depois de muitas leituras em sites oficiais e blogs de viagem, que no final das contas não é tudo “livre e tranquilo” como se pensa e se diz por aí. E não, você não deve vestir roupas “normais”, como se estivesse na Europa ou nos EUA. Mulherada, se liga. Se você quiser conhecer a cidade de verdade e sua cultura, os souks, as mesquitas, os museus, o oásis, o deserto, será preciso respeitar o pensamento do nativo, do morador e cobrir ombros, pernas e ser o mais discreta possível. Porque a verdade é que existem dois mundos claramente divididos: o dos turistas nos grandes hotéis, onde há várias opções de entretenimento internacional, e o mundo muito maior que engloba todas as outras pessoas que, pelo que li, só podem beber álcool dentro de suas próprias casas e ainda se tiver uma permissão cedida pela prefeitura. Certo ou errado, não cabe a mim julgar, apenas quero estar ciente dos fatos.
Na verdade, eu já imaginava. Como já fui muitas vezes para a Turquia, que é considerada um país islâmico relax, eu sabia exatamente do que se tratava. Uma coisa é a impressão superficial do turista ocidental desavisado que passa apenas poucos dias passeando nas atrações mais importantes da cidade e outra coisa, beeeeeem distante, é o que realmente está acontecendo. E devo dizer, é uma benção quando conseguimos ser um turista desavisado, porque nesse caso, a ignorância é o que vai te salvar de muitos incômodos e nós na cabeça. A famosa ignorância que é uma benção, o desconhecimento que te protege da real, bons tempos que eu conseguia viajar assim. Hoje eu gosto de ler tudo que posso, gosto de mergulhar nas águas profundas de cada destino e ainda levo um pedacinho do que vivi para casa e sempre deixo outro tantinho de mim pelos lugares que passei. E eu prometo um post bem detalhado sobre a vinha visão de lá quando eu voltar 😉
Voltando ao assunto, o fato é que vamos pegar 4 dias de Ramadan em Abu Dhabi e se você faz ideia do que isso significa mesmo sem ser islâmico, você soltou um “AI” longo e silencioso, seguido de uma cara de desânimo. O Ramadan é o tradicional período religioso de 30 dias, que em cada ano começa em uma data diferente, porque segue o calendário lunar e respeita a posição da lua (pelo que eu li no site de guias em Dubai). E o que acontece é que os muçulmanos ficam em jejum desde de o amanhecer até o sol se pôr, durante esse período. Assim, nessa época do ano, é esperado que as pessoas vão ficar sem comer ou beber de 4 da manhã as 7 da noite. Moleza?
Eu já conhecia esse costume e já tinha ouvido alguns comentários dos meus amigos turcos que levavam o Ramadan muito a sério. Imaginei, em princípio, que a moderna e poderosa Dubai não iria mudar a rotina de seus abastados turistas frente a uma tradição ligada a religião e é claro que eu estava errada. Vários blogs e sites me avisaram que os estabelecimentos não ficam abertos durante o dia, que não há lugar para comprar um lanche e até para beber um gole da sua garrafa de água (que é claro você levou do hotel porque na rua não tem onde comprar), você teria que se esconder na cabine do banheiro. Isso é entendido como respeito aos locais, que estarão levando o jejum muito a sério e durante esse período fica proibido consumir qualquer coisa (comida ou bebida) em público.
“Como assim?”, essa foi a minha primeira pergunta, quando olhei espantada para a cara do meu maridão. “Vamos mudar os planos e pegar a dias de balada em alguma ilha grega bombante no final da nossa viagem, passar fome não tá com nada.”, dei o grito quase que imediatamente. ” Você não disse que sua próxima leitura é o Alcorão? Participar do Ramadan vai ser bom para a gente”, ele me respondeu. E não é que ele estava certo?
Assim, meio sem pensar demais no assunto, resolvi aceitar o desafio. O Ramadan vai ser uma ótima oportunidade para aprender e internalizar a importância da humildade, da espiritualidade e da paciência. Acrescentei ao desafio proposto pelo meu marido que nos dias do Ramadan vamos rezar as cinco vezes por dia, ou seja, vamos respeitar o chamado das mesquitas e elevar o nosso pensamento a Deus, na tentativa de uma limpeza interna total, corpo e alma. E meu amor topou a empreitada.
Parece loucura nossa? Pirei de vez? A sexta-feira santa está quase aí e a maioria dos brasileiros ditos católicos já estão preparando as cervejas e as carnes, abastecendo o carro e reclamando do preço de tudo, porque em breve estarão a caminho de algum churrasco no sítio do amigo. Eu entendo a necessidade de sair da nossa rotina estressante e posso dizer, sem hipocrisia, que fiz isso muitas vezes, então não quero julgar ninguém. Faça o que você acha certo e vá ser feliz, com carne ou sem carne na sexta-feira santa. Eu vou tentar viver outra experiência.
Meu pensamento vai além, porque eu não escolhi conscientemente passar o Ramadan em um país islâmico, não foi uma opção minha, digamos assim. Mas eu sou livre para não ir, para ir e não respeitar os costumes locais e me acabar comendo bacon no meu quarto de hotel. Ao invés disso, eu vou aceitar a oportunidade de viver algo diferente, de desafiar minha mente muito mais do que meu corpo e descobrir se, acima de tudo, a força da minha força de vontade está mais forte do que nunca. Ou se não está, se eu vou penar e desesperar de fome, mesmo com o Alcorão embaixo do braço. Em todos os casos, certamente vai valer a tentativa de viver algo diferente e inusitado, de aprender um pouco mais sobre o costume do outro, vai, no mínimo, abrir minha cabeça para respeitar as crenças do diferente. E a cabeça aberta nunca volta para o tamanho original.
Me desejem boa sorte. Ah, e boa Páscoa. Depois conto o resultado para vocês.





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